domingo, 24 de janeiro de 2010

NO PORÃO DA PONTE

Na tarde cinzenta do domingo, foi ao porão, solitário, procurou algo em que pudesse firmar seus pensamentos. Pousou os olhos sobre o amontoado de móveis empoeirados, objetos que esperavam conserto. Nada que tivesse valor ou que satisfizesse sua angústia momentânea. Remexeu mais uma vez, mas só fez aumentar a frustração. Estava quase a ponto de desistir quando viu a um canto um rádio velho. Será que ainda funcionava? Pegou-o, soprou o pó que o encobria e levou-o à tomada. Conectou e girou o botão. Iniciava-se uma vinheta: “Marcos Baby Durães! Alô, Alô, São Paulo, meu amor! ... Começa aqui, mais uma Aldeia Global!!...” O programa radiofônico tomava a tarde inteira dos domingos. Nele, incluía-se a transmissão de futebol. Ah! O futebol, o Corinthians bem que poderia ganhar naquela tarde – domingo, 09 de setembro de 1973. Não agüentava mais a gozação dos colegas. Quando o time do coração perdia, a segunda-feira se tornava um calvário.

Não foi o caso. O Timão ganhou apertado no Pacaembu, somente de um a zero em cima do São Paulo. A segunda-feira seria menos desagradável.

Aproveitou o silêncio do porão e deitou-se sobre uma poltrona velha e fria, jogada a um canto. Ali ninguém o perturbaria. As pessoas detestam porões. Este nome tinha tudo a ver com ele: desilusões, frustrações, solidões. Mas era o único lugar em que tinha paz, em que podia viajar em seus pensamentos.

Lá fora ainda restava um pouco de claridade, embora a escuridão o envolvesse. Mal dava pra enxergar a luzinha acesa no painel do velho rádio. Sentindo-se protegido pelo ambiente escuro, adormeceu em paz com a vida e com o time do coração. Uma música suave levou os sonhos a outros recantos.

Madrugada. Levantou-se. Tateou a procura do interruptor. Que horas seriam? Mal enxergava a luzinha vermelha do rádio. Dali a pouco ouviu o barulho do trem passando na Variante. Era uma locomotiva a diesel. Os ruídos davam a impressão de que os trilhos eram bem próximos, mas estavam longe, além da Garagem da VUP- Viação Urbana Penha. A garagem da VUP ficava na Avenida Gabriela Mistral na Penha, entre o pontilhão da linha férrea e o atual Viaduto do Migrante Nordestino. Os ônibus da Viação Urbana Penha – VUP – imitavam disfarçadamente os da Empresa de Ônibus Guarulhos tanto nas cores como nas carrocerias que, na maioria das vezes, eram fabricadas pela Paschoal Thomeu. Dessa extinta empresa, saiam ônibus da Penha com destino ao Bom Retiro e para o Cambuci.

Na rua, o silêncio era quase completo, somente o silvo de um guarda noturno dava sinal de vida. Não era hora ainda de levantar. Aproveitaria o sono gostoso da madrugada naquele momento especial. A segunda-feira não seria pesada. Os são-paulinos que se cuidassem. Voltou a dormir. Os são-paulinos se cuidassem!

De repente abre os olhos. Há barulho na rua. Sobe e desce de pessoas, crianças batem bola. Carros buzinam na Marginal Tietê. Dá um pulo repentino. Quer ouvir a hora. Vai ao rádio. Mexe no ponteiro e ouve: “Seu Leporace agora com o Trabuco, vai comentar as notícias dos jornais. Seu Leporece agora com o Trabuco, vai dar um tiro nos assuntos nacionais.” A seguir, uma voz rouca e cansada surgiu da cascinha de plástico esverdeada e passou a comentar as manchetes do dia. Estas, pouco lhe interessavam, não tinha nada a ver com o aumento das paisagens nem com o do pão. Do pão? É claro que tinha! Ganhava tão pouco! No entanto, o que perturbava agora era o patrão. Perdera a hora! O Trabuco?!

Aí, Seu Leporace, acrescenta mais uma manchete às suas:

CORINTIANO POSTO NO OLHO DA RUA

domingo, 17 de janeiro de 2010

BASTIDORES DA PONTE GRANDE

No início da década de 1970, havia várias fabriquetas de calçados na Ponte Grande. A maioria operando na ilegalidade. Geralmente, funcionavam em fundos de quintais e seus proprietários eram oriundos de estados nordestinos, principalmente, de Pernambuco, da Paraíba e de Sergipe.

O fato de serem clandestinas não significa que eram pequenas e desorganizadas, pelo contrário, algumas delas possuíam um quadro de funcionário numeroso, variando de 10 entre 15 empregados, estes eram distribuídos numa verdadeira linha de montagem, indo do homem que cortava o couro ao moleque o qual empacotava o produto já pronto. A mão-de-obra era suprida por sapateiros nordestinos, mineiros e até paulistas se encontravam entre eles.

A mercadoria escoava-se facilmente pelas feiras livres da capital paulistana, chegando-se até exportar para cidades do interior e, às vezes, vendia-se o excedente também para outros estados, todos da região Sudeste.

Entre os sapateiros, predominavam os pernambucanos e os mineiros, os quais procediam de cidades como Santa Rita do Sapucaí, São Gonçalo e Pouso Alegre. Mas, também era comum encontrar sergipanos, cearenses e paraibanos. Os de Pernambuco procediam em maior número de Caruaru.

O regime de trabalho adotado nas fabriquetas era o da produção, ganhava-se pelo que se produzia, por isso não era rígido nem gerava dificuldades para os proprietários delas. De forma geral, não se trabalhava na segunda-feira nem no sábado, salvo, no fim de ano, época em que havia maior procura pelo produto.

O nível de instrução dos sapateiros era baixíssimo. Poucos eram os que mal sabiam desenhar o nome. Os que conseguiram passar além desse estágio colaboravam com os outros na leitura e na hora de responder as cartas dos parentes distantes. Como o Mobral estava em atividade naqueles anos, alguns se aventuravam a freqüentar as aulas que eram ministradas numa igreja na Penha. Boa parte deixava-se vencer pelo cansaço e se julgavam velhos para estudar.

Quanto ao ambiente de trabalho, não existia precariedade. Os proprietários tinham o maior zelo pela limpeza e organização. Tudo era feito no sentido de causar boa impressão aos clientes que vez ou outra visitavam as indústrias. Um barracão bem apresentável acabava refletindo de forma positiva na hora da compra do produto.

Fato curioso é que havia muita cordialidade entre os fabricantes. Um ajudava o outro naquilo que era necessário. Por exemplo: se o José não possuía uma máquina de estampar o couro, podia usar a de Pedro que, por sua vez, precisava da de José para costurar as peças de calçados. Mais um detalhe interessante: não havia concorrência. Caso José fabricasse sapatinhos para crianças, Pedro só fabricaria sandálias femininas e, assim por diante. Em outras palavras: imperava uma cooperação recíproca. Talvez o fato de que todos tivessem uma mesma origem e um mesmo histórico de vida, acabasse anulando qualquer competição que pudesse surgir.

No interior das fabriquetas, o clima era bem amistoso. Nordestino quando se junta parece tudo irmão. Todos têm os mesmos gostos, o mesmo sotaque, as mesmas marcas inconfundíveis do sol implacável. Não importa de que estado seja, olhar para um é enxergar o outro. De modo que as conversas giravam sempre em torno dos anseios dos iam e das novidades dos que voltavam da terra natal; das saudades, da comida e, principalmente, de um dia fazer o caminho de volta, levando talvez um dinheirinho a mais na bagagem.

Numa dessas pequenas indústrias, trabalhavam dois mineiros. Ambos oriundos de Santa Rita do Sapucaí. Chegavam sempre na segunda-feira pela tarde e retornavam na sexta. Para ganharem tempo e dinheiro, eles desembarcavam num viaduto que havia perto da caixa d’água do Jardim Munhoz, na Via Dutra, vizinho à Borlem. Vinham a pé até a sapataria, onde se preparavam para o trabalho na terça.

Na quinta-feira à noite, um deles ia até o antigo terminal rodoviário da Praça Júlio Prestes e comprava a passagem de volta para o dia seguinte. Este se comprometia trazer também para todos os conterrâneos, não importava o local em que trabalhasse. Isso era prático e econômico.

Certo dia, um mineiro, cujo apelido era Foguinho - torcedor do Bota Fogo do Rio - foi à rodoviária pela primeira vez. Voltou encantado. Nunca havia visto uma coisa tão bonita em toda sua vida. E descreveu: a rodoviária da Praça Júlio Prestes é um encanto. É um mundo colorido. O teto parece um amontoado de balões de todas as cores; há escadas que sobem e que descem; cada uma mais lotada que a outra. E o melhor é que a gente não faz esforço nenhum em subir por elas. Bota o pé naquele trem e, pronto! Ele te leve pra cima; depois, te bota pra baixo. E os ônibus? Saem ônibus por todo lado. Um entra aqui; outro, sai acolá. Parece um formigueiro.

Estava muito empolgado, assumiu o compromisso de ir todas às quintas. Queria conhecer melhor aquele trem bom. Porém, um colega sabedor que ele era muito medroso, falou que odiava aquela rodoviária porque foi lá onde a polícia o levou pro xadrez, pelo fato dele não portar documentos pessoais. Esse incidente o impediu de viajar ao Rio a fim de assistir a uma partida em que o Santos jogaria.

O Foguinho, após arregalar os olhos pro companheiro, disse que, pensando bem, era besteira dele ir à rodoviária todas as semanas. Esquecessem o que havia dito. Quando desse vontade de ir até lá, compraria um cartão postal da Praça Júlio Prestes e, tudo bem, resolveria o problema. (Contato: jilberto.oliveira@yahoo.com.br)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Da Ponte ao Jaçanã

Aos dezesseis anos, duro e sem perspectiva de emprego, a angústia passou a ser minha companheira permanente. É bem verdade que não me faltava nada. Mas, o fato de depender dos meus irmãos para as coisas mais básicas da vida deixava-me imensamente mal-humorado.

Eles percebiam meu baixo astral e, em vez de me ajudarem a controlar a situação, acabavam por dificultar muito mais à medida que colocavam entraves nos meus planos. Eram comuns comentários do tipo: “Se aquieta, moleque! Quem vai dar emprego pra você? Sendo de menor e sem instrução?”

O que eles queriam mesmo era me controlar os passos. Parece que os solteirões tinham prazer em descarregar em mim todas as frustrações recalcadas.

Mas, eu era teimoso e sabia muito bem o que queria em minha vida.

Certo dia, fui à casa de uma amiga e, lá, conheci uma senhora cujo marido, aposentado, trabalhava fazendo cobranças de uma distribuidora de livros. Foi ela quem me aconselhou a procurar o dono da firma.

No dia seguinte, compareci à distribuidora. O dono recebeu-me de forma simpática. Mostrou-se interessado em me dá o emprego, mas foi logo colocando os pontos nos is. Falou que, se eu quisesse trabalhar, tinha que ser sem registro em carteira, já que estava próxima a idade do serviço militar obrigatório. Quanto ao salário, pagava-me dez por cento do valor de cada prestação recebida. Sobre os locais de cobrança, seriam naqueles bairros em que nenhum cobrador tinha interesse em trabalhar porque os clientes eram poucos e distantes um do outro. Sem objeção, aceite as condições.

No primeiro dia de trabalho, peguei uma pasta que continha ficha de clientes do Jaçanã, Parque Edu Chaves, Tucuruvi e das Vilas Gustavo, Medeiros e Sabrina. Caso desse tempo, faria duas ou três cobranças também na Vila Mazzei. Além da pasta recheada com fichas de clientes dispersos, levava o dinheiro da condução e o guia da cidade de São Paulo.

Nunca havia ido muito além da Ponte Grande, alguma vez, até a Penha e, raramente, ao Brás. Nem o centro de Guarulhos eu conhecia. De modo que, mal havia começado a trabalhar, os problemas já se haviam iniciado.

Consultei o guia da cidade e estava lá: Jaçanã - bairro ligado à Vila Galvão, só que eu também não conhecia essa vila. Porém, recordei-me que na Avenida Guarulhos passava um ônibus verde-amarelo que fazia a linha da Penha para esse bairro e vice-versa.

Na Avenida, plantei-me no ponto do ônibus por mais de uma hora. Informaram-me que a demora era devido à existência de um único ônibus na linha.

Dentro do ônibus e percorrendo por lugares por onde nunca havia passado: Anel Viário (atual Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco), Hospital Padre Bento e, finalmente, numa praça em que havia um avião de guerra, como monumento. Era o ponto final e o Jaçanã estava do outro lado da Rodovia Fernão Dias.

Andei um bom trecho até chegar ao primeiro cliente. Não me lembro o nome da rua. Recordo-me que nela ficava uma fábrica de tecido enorme, com as chaminés também imensas, apontadas para o céu. Na frente da fábrica, havia uma loja em que vendiam tecidos a preços bem razoáveis. (Inclusive, comprei ali, meses depois, um tecido pra mandar fazer meu primeiro terno.)

Nas minhas andanças pelo bairro do Jaçanã, imortalizado por Adoniran Barbosa, em seu famoso “Trem das Onze”, aprendi muitas coisas. Ali, tudo parecia respirar a nostalgia, talvez por ser um bairro periférico, quase ao pé da Cantareira, conservava o ar de vila campestre, com uma calmaria um tanto bucólica que só era quebrada quando se chegava à Avenida Guapira, logradouro em que se estabeleciam algumas casas comerciais como lojas de móveis e lanchonetes.

Não foi do meu tempo, mas tinha-se a impressão de que a qualquer momento o trenzinho da Estrada de Ferro da Cantareira irromperia com apitos estridentes, avisando aos últimos passageiros que estava na hora de partir ou, talvez, acabara de chegar da Luz, trazendo passageiros imaginários, com seus destinos variados. Quem sabe desceriam na estaçãozinha que - aquela altura (1976) já havia sido desativada há tanto tempo – e procurariam o cine Coliseu onde seria realizado o bailão do Zé Bétio.

O Jaçanã na época possuía vida própria. Poucos foram os bairros periféricos de uma metrópole que adquiriram tanta notoriedade como ele. E, em alguns casos, torna-se instigante. Por exemplo, o nome do bairro, originado de uma ave pequena a qual mede cerca de 23 centímetros, vive nos banhados ou nos pequenos brejos. Seria essa região o habitat natural desse tipo de ave? Possivelmente. Convém lembrar que o bairro de Adoniran Barbosa fica numa área baixa, entre o terreno acidentado do Tucuruvi e a Serra da Cantareira, talvez, ali, outrora, já fora uma várzea invadida pelas águas do Rio Cabuçu, local apropriado para aves aquáticas. Falo isso em hipótese, pois não sou paulistano e, infelizmente, não chegou a mim nenhuma informação sobre a origem daquela importante área urbana. No entanto, as boas lembranças que, de lá eu guardo na memória, nunca se apagarão; essas, eu as levarei comigo, através dos tempos.

Quando cheguei a Guarulhos em 1972, juntamente com a letra de Adoniran Barbosa, somou-se a ela o falatório do radialista Zé Bétio (Rádio Record), com sua chamada que recomendava aos que quisessem arrumar namorado ou namorada que fossem ao bailão do velho Cine Coliseu. Segundo ele, esse baile era infalível. E onde ficava o Cine Coliseu? É claro que no Jaçanã!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Na primeira vez

Cresci, ouvindo de minha mãe, as histórias de atrocidades que Lampião e seu bando cometiam no sertão de Sergipe e toda a região. Eram relatos que por vezes me tiravam o sono. Não entendia como a maldade podia dominar tanto a mente de seres que se dizem humanos.


Naquele dia, em especial, alguém me narrava, pela primeira vez, um episódio que não tinha nada a ver com os cangaceiros e não era a minha mãe quem relatava. Estranhamente era minha cunhada.

O caso está registrado no livro de Gênesis no capítulo 38. Judá casou com a filha de um cananeu e juntos tiveram três filhos: Er, o mais velho; Onã, o do meio e Selá, o mais novo. Naquele tempo, quem escolhia a esposa para os filhos eram os pais. Nesse contexto, Judá escolheu uma moça chamada Tamar para ser companheira de Er. Porém, este era muito perverso e teve morte decretada pelo Senhor. A jovem esposa ficou viúva e sem filhos. Um problemão na época, pois todo homem antes de morrer deveria deixar pelos menos um filho a fim de lhe preservar descendência.

Pra solucionar o problema, Judá, o sogro de Tamar e pai do falecido Er, decide que cabe ao filho do meio, Onã, possuir a cunhada com objetivo de suscitar descendentes ao irmão maldoso falecido. Porém, esse moço agiu de má fé e toda vez que se deitava com a cunhada, deixava o sêmen escorrer deliberadamente pelo chão. Sendo assim, a jovem viúva nunca engravidaria. A atitude egoísta de Onã, em não gerar filhos ao irmão, foi desaprovada também pelo Senhor o qual o eliminou do rol dos vivos.

Como eram apenas três filhos e os dois mais velhos já haviam morrido, a responsabilidade de suscitar descendentes estava nas mãos de Selá, o caçula, só que ele ainda era uma criança. Pra resumir a história que todos já sabem: Tamar teria que esperar que o jovem se tornasse homem adulto.

Bem, enquanto Selá se torna adulto em nossa mente, vamos à outra história.

O relato do episódio bíblico da família de Judá foi para mim mais apavorante do que as histórias dos cangaceiros. Surtiu um efeito que nunca havia imaginado na vida. Momentaneamente, deu-me uma vontade imensa de conhecer mais a respeito da Bíblia e de seus personagens.

A minha cunhada tornou-se uma vítima, no bom sentido. Vivia a atormentando pra que ela contasse mais e mais histórias a fim de saciar-me a mente que estava em formação.

Numa noite, já cansada de tantas histórias e depois de um dia fatigante de trabalho, sugeriu: você deve freqüentar uma igreja adventista. Como na Ponte Grande – em 1975 - não havia um templo dessa denominação, fui encaminhado ao bairro da Penha.

Não sei o motivo que escolhi um sábado, daqueles friorentos, em que a garoa não dá trégua. Cheguei ao Mercado Municipal da Penha e me informei. Segui pela praça lateral, desci pela Avenida Cangaíba e, de repente, encontrei-me na Rua Teresa Assunção nº 45, em frente a um prédio acinzentado. Na fachada, estava escrito: templo adventista. Ali estava o grande templo da IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA DA PENHA. Lugar onde eu freqüentaria cinco anos consecutivos.

Atravessei a rua e subi os degraus que dão acesso ao auditório em que ocorrem os cultos. Adolescente, sozinho como um cão em terreno desconhecido, meio sem jeito, fui recepcionado por um senhor afro-descendente, alto, bem elegante e educado. Desejou-me as boas vindas, perguntou o meu nome, anotou em uma caderneta e empurrou a porta para que eu entrasse. Dias depois fiquei sabendo o nome desse senhor: o irmão Luís Maciel, como era carinhosamente conhecido.

Ao entrar, foi um choque. Não recuei porque as condições não me favoreceram. Era justamente no momento em que eles estavam revisando a Lição da Escola Sabatina, uma espécie de dever de casa diário para os membros que tem que ser avaliada no dia de Sábado na primeira parte da programação. Os professores, de pé, é assim que eles passam a Lição, de frente para a entrada, deram-me todos com os olhos de uma só vez. Meio acuado, sentei-me no primeiro espaço que encontrei vazio. E ali fiquei entocado.

Para alívio, terminou. Mal sabia que era somente a primeira parte que estava chegando ao final. Depois, houve cânticos, saudações e, pasmem, meu nome foi lido lá na frente, e como era visitante, pediram-me que ficasse de pé para que toda a congregação me conhecesse.

Em seguida, entrou um coral composto de umas trinta pessoas entre baixos, tenores, barítonos e contraltos. Homens e mulheres entoavam um Hino que dizia: Santo... Santo... Santo. Deus Jeová... Senti arrepios e, momentaneamente, envolvi-me numa atmosfera celestial.

Cessados os hinos, entra na plataforma um conjunto de homens impecavelmente bem vestidos. Ajoelham-se e oram. Atrás do púlpito, está o pastor.

O sermão girou em torno das dificuldades de se pregar o evangelho na África. O pastor estava em missão naquele continente e, de férias, viera ao Brasil passear. Nada de girafas nem hipopótamos. Os africanos precisavam de mais gente para a obra porque o campo era imenso.

Em casa, tomei a Bíblia e fui ver o que havia sucedido com a família de Judá. A essa altura, o filho mais novo - lembram? - Selá já devia estar homem feito, pronto pra coabitar com a cunhada e dar continuidade ao nome de Er, seu irmão. Isso se o pai dele - Judá - não tivesse caído numa armadilha da nora – Tamar - e deitado com ela pensando ser uma prostituta cultual.

Resumo da história: a criança que estava no ventre da viúva de Er era irmão dele e, ao mesmo tempo, pela lei do Levirato, filho. Só isso? Talvez mais coisas!
Parece confuso? Essa história está resumida. Quem desejar saber os detalhes vale à pena consultar a fonte maior: encontra-se na Bíblia; livro Gênesis, capítulo 38.

domingo, 15 de novembro de 2009

QUEIJO ‘BATIZADO’

Carmelita morava na Ponte Grande, mas costuma visitar Nivalda, uma amiga também nordestina, que morava num velho casarão, da Rua Gomes Cardim no Brás. O casarão era um cortiço, abrigava várias famílias, quase todas oriundas do Nordeste.

Vizinho à casa de Nivalda, ou melhor, ao cômodo em que moravam, residia um vendedor de queijo. O mal-cheiro que dali saia era insuportável. Impregnava toda a vizinhança.

Às vezes, Nivalda e a amiga queriam sair da rotina pão-com-manteiga e comerem um queijinho. Uma olhava para outra, dava uma piscadela e dizia:

- Que tal comprar queijo na queijaria do vizinho?

É claro que elas não queriam o queijo dele, era só brincadeira. E lá se ia uma delas comprar queijo numa padaria da Rua Oriente.

Não só elas, vizinhas da queijaria improvisada, tinham receio do produto vendido naquele local, mas todos os demais moradores agiam da mesma forma.

Especulava-se muito por que o lugar era tão fedorento, no entanto, nada se sabia sobre o fato. Na ausência de uma explicação plausível, as mentes mais férteis tratavam de tecer teorias infundadas. Para uns, o mau-cheiro advinha do ambiente úmido e mal iluminado do velho prédio; outros diziam que era devido ao soro do queijo ao ser derramado, molhava o soalho de madeira.

A verdade é que se Antonino, o queijeiro, dependesse delas, não vendia um grama de seu produto alimentício. Mas isso não era problema. Todos os dias chovesse ou fizesse sol, ele jogava uma sacola às costas e saia logo cedo atender à clientela. Certamente usaria como argumento:

- Queijo fresquinho! Diretamente das Minas Gerais pra São Paulo! Comprem e se deliciem!

- Cruzes! Se soubessem de onde aquele queijo saia, não o queriam nem de graça.

Certa vez, a Nivalda teve vontade de visitar uma prima que morava para as bandas de Vila Formosa. Convidou Carmelita. E num domingo ensolarado, puseram-se num ponto de ônibus à espera do coletivo que as conduziria à Vila.

Finalmente, chegou o ônibus.

- Vamos, vamos! Chamou a Nivalda.

Carmelita, que nunca andara de ônibus elétrico, recusou-se a ir.

- Deixe de bobagens, mulher! Isso nunca incendiou, não será hoje que irá pegar fogo com você dentro.

- Sei lá! Só vejo esse troço soltando faíscas pelos fios!

Entraram na condução, no princípio, Carmelita estava amedrontada, mas relaxou e se descontraiu. Até que achou bom. Tudo limpinho, os bancos acolchoados, durinhos. Uma maravilha!

Entra rua, dobra esquina, sai em outra, quando do fundo do ônibus, Carmelita avistou o Antonino e sua sacola de queijos. Cutucou a Nivalda e mostrou-lhe quem ia com elas.

- Comadre – disse a Nivalda – você não sabe o que Pedrinho, o outro nosso vizinho, descobriu sobre o queijeiro!

E contou bem baixinho no ouvido de Carmelita:

- Pedrinho olhou pelo buraco da fechadura e viu o Antonino urinando sobre a pilha de queijos.

- Ah! Mas isso é demais! Por isso o mau cheiro, comadre! Bicho nojento!

- Pois é. Dizem que urina é ótimo para curar queijos.

- Credo! Que nojo!

Chegando à casa da parenta de Nivalda, passaram uma manhã agradável entre conversas e brincadeiras, ao meio-dia, almoçaram comidas típicas do Nordeste e beberam suco de umbu.

A tarde foi igual a parte da manhã, bem descontraída.

Por volta das três horas, as duas amigas prepararam-se para o retorno.

- Não sem antes fazermos um lanche. – disse a dona da casa.

Comeram biscoitos de Caruaru, bolo de macaxeira e, para variar, um gostoso queijo.

- Comam, comam à vontade! Deste, vocês nunca comeram. Vem diretamente do sertão pernambucano – falou a anfitriã, olhando para as visitas.

- De que casa do Norte você compra este queijo? Perguntou Nivalda.

- Bem, este queijo eu compro de um senhor que mora no Brás. Ele me garantiu que vem fresquinho do Nordeste.

- Ah, é? Qual o nome do vendedor?

- O nome dele... é ... deixe-me ver! ... é Antonino!

- Seu Antonino!!!? – responderam as visitantes arregalando os olhos.

- É. Por quê?

- Pois, nós o conhecemos!! – disseram as visitantes assustadas.

Despediram-se da dona da casa e foram embora. Ela não entendeu o motivo de tanta pressa. Se o lanche estava bom, poderiam comer um pouco mais!

Aos engulhos, Nivalda e Carmelita chegaram em casa. Não tiveram mais apetite para jantar naquela noite.

E queijo, nunca mais.

Carmelita morava na Ponte Grande, mas costuma visitar Nivalda, uma amiga também nordestina, que morava num velho casarão, da Rua Gomes Cardim no Brás. O casarão era um cortiço, abrigava várias famílias, quase todas oriundas do Nordeste.

Vizinho à casa de Nivalda, ou melhor, ao cômodo em que moravam, residia um vendedor de queijo. O mal-cheiro que dali saia era insuportável. Impregnava toda a vizinhança.

Às vezes, Nivalda e a amiga queriam sair da rotina pão-com-manteiga e comerem um queijinho. Uma olhava para outra, dava uma piscadela e dizia:

- Que tal comprar queijo na queijaria do vizinho?

É claro que elas não queriam o queijo dele, era só brincadeira. E lá se ia uma delas comprar queijo numa padaria da Rua Oriente.

Não só elas, vizinhas da queijaria improvisada, tinham receio do produto vendido naquele local, mas todos os demais moradores agiam da mesma forma.

Especulava-se muito por que o lugar era tão fedorento, no entanto, nada se sabia sobre o fato. Na ausência de uma explicação plausível, as mentes mais férteis tratavam de tecer teorias infundadas. Para uns, o mau-cheiro advinha do ambiente úmido e mal iluminado do velho prédio; outros diziam que era devido ao soro do queijo ao ser derramado, molhava o soalho de madeira.

A verdade é que se Antonino, o queijeiro, dependesse delas, não vendia um grama de seu produto alimentício. Mas isso não era problema. Todos os dias chovesse ou fizesse sol, ele jogava uma sacola às costas e saia logo cedo atender à clientela. Certamente usaria como argumento:

- Queijo fresquinho! Diretamente das Minas Gerais pra São Paulo! Comprem e se deliciem!

- Cruzes! Se soubessem de onde aquele queijo saia, não o queriam nem de graça.

Certa vez, a Nivalda teve vontade de visitar uma prima que morava para as bandas de Vila Formosa. Convidou Carmelita. E num domingo ensolarado, puseram-se num ponto de ônibus à espera do coletivo que as conduziria à Vila.

Finalmente, chegou o ônibus.

- Vamos, vamos! Chamou a Nivalda.

Carmelita, que nunca andara de ônibus elétrico, recusou-se a ir.

- Deixe de bobagens, mulher! Isso nunca incendiou, não será hoje que irá pegar fogo com você dentro.

- Sei lá! Só vejo esse troço soltando faíscas pelos fios!

Entraram na condução, no princípio, Carmelita estava amedrontada, mas relaxou e se descontraiu. Até que achou bom. Tudo limpinho, os bancos acolchoados, durinhos. Uma maravilha!

Entra rua, dobra esquina, sai em outra, quando do fundo do ônibus, Carmelita avistou o Antonino e sua sacola de queijos. Cutucou a Nivalda e mostrou-lhe quem ia com elas.

- Comadre – disse a Nivalda – você não sabe o que Pedrinho, o outro nosso vizinho, descobriu sobre o queijeiro!

E contou bem baixinho no ouvido de Carmelita:

- Pedrinho olhou pelo buraco da fechadura e viu o Antonino urinando sobre a pilha de queijos.

- Ah! Mas isso é demais! Por isso o mau cheiro, comadre! Bicho nojento!

- Pois é. Dizem que urina é ótimo para curar queijos.

- Credo! Que nojo!

Chegando à casa da parenta de Nivalda, passaram uma manhã agradável entre conversas e brincadeiras, ao meio-dia, almoçaram comidas típicas do Nordeste e beberam suco de umbu.

A tarde foi igual a parte da manhã, bem descontraída.

Por volta das três horas, as duas amigas prepararam-se para o retorno.

- Não sem antes fazermos um lanche. – disse a dona da casa.

Comeram biscoitos de Caruaru, bolo de macaxeira e, para variar, um gostoso queijo.

- Comam, comam à vontade! Deste, vocês nunca comeram. Vem diretamente do sertão pernambucano – falou a anfitriã, olhando para as visitas.

- De que casa do Norte você compra este queijo? Perguntou Nivalda.

- Bem, este queijo eu compro de um senhor que mora no Brás. Ele me garantiu que vem fresquinho do Nordeste.

- Ah, é? Qual o nome do vendedor?

- O nome dele... é ... deixe-me ver! ... é Antonino!

- Seu Antonino!!!? – responderam as visitantes arregalando os olhos.

- É. Por quê?

- Pois, nós o conhecemos!! – disseram as visitantes assustadas.

Despediram-se da dona da casa e foram embora. Ela não entendeu o motivo de tanta pressa. Se o lanche estava bom, poderiam comer um pouco mais!

Aos engulhos, Nivalda e Carmelita chegaram em casa. Não tiveram mais apetite para jantar naquela noite.

E queijo, nunca mais.